sábado, 2 de outubro de 2010

.Noturno em lenços de papel.


"Eu não consigo respirar. Juro por Deus. Não consigo. Estou com falta de ar. O nariz tão entupido, que a respiração é um sonho impossível. Vou parar de respirar e morrer sufocada. É isso aí. Vou morrer aqui sozinha, nesse décimo-quinto andar, mais abandonada que vira-lata. Me arrasto até o banheiro e me vejo no espelho: virei monstro. Nariz vermelho, olhos vermelhos, rosto inchado. Se ele me visse desse jeito, aí sim é que saía correndo. Vou tomar um banho. É bom. Relaxa. E além do mais desentope o nariz. Que se dane se é o terceiro banho de hoje, todos com a mesma finalidade: relaxar e desentupir o nariz. Oh Jesus. Deixa eu pegar o telefone sem fio e levar pro banheiro. Porque a esperança é a última que morre; e quem sabe, Deus é bom, ele pode interromper por um pequeno, minúsculo instante a sua ocupada e significativa existência e lembrar da minha miserável, ridícula, patética pessoa. Mas duvido... duvido que isso aconteça... duvido muito... oh, meu Deus, não é possível, comecei de novo.Pronto. Peguei o sem fio. E já faz cinco minutos que não choro. Estou fazendo progressos.Ai, que água quente gostosa! Relaxante. Onde será que ele está agora? Com a outra? Trabalhando? Trepando? Passeando? Enchendo a cara? Será que ele não pensa nem um minuto, nem um minutinho em mim, meu Deus? Se pensa, deve achar que sou uma trouxa. Deve rir de mim. Que raiva.O celular. Puta que pariu. O celular está tocando. Preciso ir atender. Pronto, só me faltava essa. Escorreguei, caí. Acho que torci o tornozelo. Que loucura, sair molhada do banheiro. E agora o celular parou de tocar! Bosta, bosta, bosta! E se for ele?Ah, não, graças a Deus. Era aquele chato do Rodrigo. É o que eu digo, há males que vêm pra bem. Graças a Deus torci o tornozelo e escapei de atender o celular na pressa, sem olhar quem era. Imagina eu aqui, molhada, sem roupa, tremendo de frio, falando com o mala-sem-alça. Com certeza ia me convidar praqueles programas chatos dele, pizzaria na Vila Mariana, essas merdas: o tédio personificado. E sempre que tento inventar alguma desculpa pra não sair com ele, vêm umas coisas horríveis, tipo doença da avozinha, resfriado, etc. O Rodrigo percebe que estou mentindo. E sempre consegue me fazer sentir culpada. Por que existe gente assim, hein? por quê? Por que todos homens do mundo não podem ser iguaizinhos a ele? Aí eu escolhia um qualquer, casava e vivia feliz para sempre.Parece ingênuo? Pois nem precisava casar. Nem morar junto. Nem namorar! Só de ver ele todo dia, ouvir a risada dele, as histórias dele, eu já estava feliz. Mas eu não posso, né. Nem isso eu posso. Nem iiiiiissssoooo!Oh, Jesus. Que horas são? Não é possível. Devo ter ficado meia hora aqui, pelada, molhada, sentada no chão aos prantos. Eu realmente sou patética. Preciso parar com isso.Vamos ser sinceros. Estou mal. Preciso de ajuda. Urgente. Eu podia ligar pra Lucinha... Pra Carmem... Pra Marijô... Pro Celso... Mas não adianta, nenhum deles vai me ajudar. Meus amigos se dividem atualmente em duas classes: aqueles que não agüentam mais ouvir falar do indivíduo, e aqueles que só me ouvem pra dar a maior bronca. Talvez eu precise de uma ajuda química. Não que goste dessas coisas. Último recurso. Mas não posso passar a noite assim... Deixa eu me enxugar, botar uma camisola. Onde enfiei aqueles tranqüilizantes que o médico me deu?Estão aqui. Pequeninos. Cor-de-rosa. Dois deles, e desabo na cama. Amanhã estou nova.Mas não sei se é boa idéia... Comprimidos pra dormir viciam... Se eu começar a tomar esses troços cada vez que ficar triste, viro uma junkie, porque ultimamente vivo triste!Pensemos em outra solução. Hum... Aquela garrafa de vinho que ganhei de aniversário. Coisa fina. O Celso foi quem me deu. Gracinha de pessoa o Celso. E gosta de mim. Porque, sabe, aquele imbecil pode não acreditar, mas eu tenho amigos que gostam de mim e me tratam bem, ao contrário dele! E sabe por quê? Porque sou uma pessoa legal. Cheia de qualidades. Cadê o saca-rolha? Ah, pronto. Muitas qualidades. Sou bonita. Sou inteligente. Sou talentosa. Tenho bom coração. E outra, sou gostosa pra caramba, falou? Não preciso dele. Não preciso daquele cretino pra nada!Puta que o pariu, mas como é difícil abrir garrafa de vinho sozinha! Continuando meu raciocínio. Sou linda. Sou gostosa. Sou poderosa. Todos os amigos dele já me cantaram, só queria ver a cara do imbecil se soubesse disso! Rá, rá. Eu ia adorar. Pra ele ver que espécie de amigos tem. Hum, esse vinho está ótimo. Garanto que agora todos vão cair matando. Pois sabe o que eu vou fazer? Vou dar pra todos eles! Só pro imbecil ficar roxo de raiva!Agora vou sentar confortavelmente nessas almofadas, aqui no chão... ficar à-vontade... esquecer esse merda... Hum, de que safra é esse vinho?Dois mil e três. Foi quando a gente se conheceu. Mais um copo. Eu mereço. Vinho é uma bebida leve, saudável, não dá ressaca. Bem melhor que se encher de tranqüilizantes perigosos.Ele me ligava no meio da tarde. Vivia atrás de mim, não é incrível pensar que houve uma época em que ele vivia atrás de mim? Nossa, parece que foi há mil anos. E eu estava tão apaixonada, que só de ouvir o celular tocando - botei um tom especial pra ele, um tango - o coração já pulava no peito. Largava tudo e saía correndo atrás dele. Uma vez dei um cano no meu chefe, quase perdi o emprego.As coisas que eu fiz por esse homem... As coisas...Merda, o que é isso escorrendo pelo meu rosto? De novo? E se eu ficar desidratada, hein? Pára com isso, criatura... pára, pô.E aí ele me levava pra passear. Cada programa hilário que a gente fazia! Uma vez me levou pra conhecer uma padaria, a melhor da cidade, jurou... Outra vez fomos no cemitério, acho que nunca ninguém malhou tanto num cemitério, tremendo desrespeito com os mortinhos... E quando ele me pegou em casa, era feriado, tudo fechado, e aí rodou rodou rodou, andou por São Paulo inteira, até chegar a um lugar... onde era mesmo, meu Deus? ah, já sei... uma pizzaria na Vila Mariana... nossa, eu estava tão feliz naquela noite... acho que se morresse ali mesmo, nunca teria sido tão feliz.E agora acabou tuuudoooo!Oh, meu Deus. A garrafa já está quase pela metade. Foda-se. Foda-se. Vou tomar tudo, e se bobear tem ainda o conhaque no armário da cozinha. Não é grande coisa, mais serve... Colocar um CD pra tocar. Isso mesmo. Droga, minha mão tá tremendo...
And if a double-decker busCrashes into usTo die by your sideIs such a heavenly way to die...
Oh, meu Deus. Como é que eu vou viver sem ele? Como?O que ele está fazendo a essa hora? Dormindo? Comendo? Vendo TV? Trepando? Será que está trepando com a outra? Oh, Jesus. Fico imaginando... Parece que vou ficar maluca.A garrafa de vinho acabou.
And if a ten-ton truck Kills the both of usTo die by your sideWell, the pleasure, the privilege is mine...
Oh, meu Deus. Eu não consigo respirar. Estou com o nariz entupido. Acho que vou morrer sufocada. Vou falecer aqui, nesse décimo-quinto andar. E aí a culpa vai ser dele, toda dele, todinha dele!"


Dóris Fleury

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